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Editorial : “O futebol de Ilhéus foi sequestrado por interesses políticos”
Por Boca de Lata
Sou Jó, como sempre fui conhecido. Nasci no bairro do Malhado, na Avenida Antônio Carlos Magalhães, no antigo ponto do Macaco — para quem não conhece, próximo à loja de material de construção Cimentec. Foi ali que comecei a viver o futebol, ainda menino, quando aos 12 anos vi nascer o Copão do Malhado, um campeonato com várias equipes fortes, jogadores de alto nível e uma organização invejável. Um torneio que todos sonhavam disputar — inclusive eu.
O tempo passou, e tive meu sonho realizado ao jogar naquele que era considerado o melhor campeonato de praia de Ilhéus. A partir daí, como desportista apaixonado, passei a frequentar diversos campeonatos, inclusive o fortíssimo futebol amador da cidade. Em uma época em que o futebol era levado a sério, cheguei a pular o muro do Estádio Mário Pessoa quando não tinha dinheiro para pagar ingresso, apenas para assistir às partidas. Foi assim que fui ficando conhecido no meio esportivo.
Foi nesse ambiente que passei a acompanhar e defender com orgulho as cores da Seleção de Ilhéus, além de clubes que marcaram época no futebol local, como o Ilhéus Atlético Clube, o Rive, o Colo-Colo Futebol e Regatas e, agora, o Barcelona de Ilhéus, todos responsáveis por levar o nome da cidade aos campos da Bahia e do Brasil.
Tive a honra de jogar pelo Vitória do saudoso Maninho, ao lado de grandes craques da época, como Clodoaldo e Célio (irmãos de Aldair), Dadico, Cafu , Neto, Dego, André Chulé, Alan, Maurício Bandeira, o inesquecível Marcos Paiva, entre tantos outros. Além disso, Boca de Lata também participou da melhor escolinha de futebol da época, comandada pelo saudoso professor Renato, um homem de princípios, abnegado ao esporte e comprometido com a formação de homens de bem, muito além das quatro linhas. Com o passar do tempo, deixei de jogar e passei a acompanhar como torcedor apaixonado a Seleção de Ilhéus, seguindo o time por quase todas as cidades da região cacaueira.
Foi nesse período que passei a ser chamado de “Boca de Lata”. O futebol de Ilhéus vivia um momento vibrante: o Estádio Mário Pessoa sempre cheio, campeonatos espalhados pela cidade e um público apaixonado. Em 1998, surgiu uma nova era com o Colo-Colo Futebol e Regatas, que naquele ano conquistou o acesso à primeira divisão do Campeonato Baiano. Eu estava lá, organizando torcidas, levando o povo ao estádio a cada jogo.
Em 2006, o Colo-Colo chegou ao ápice ao se tornar campeão baiano, tendo à frente da torcida eu, Boca de Lata, ao lado do saudoso Saldanha, grande parceiro de arquibancada. Já naquela época, porém, enfrentávamos dificuldades estruturais, falta de apoio empresarial e descaso com o futebol local.
Mesmo assim, houve avanços. Na gestão do ex-prefeito Jabes Ribeiro, com apoio do Governo do Estado, o Estádio Mário Pessoa recebeu novas arquibancadas na geral. Mais tarde, na gestão do prefeito Mário Alexandre, o estádio ganhou gramado novo, reforma de vestiários e pintura. Paralelamente, o futebol amador seguiu revelando talentos, principalmente através do Copão do Malhado, base histórica da Seleção de Ilhéus.
Participei também do governo Valderico Reis, ao lado do professor Maraiton e do então secretário Rodolfo Macedo, quando desenvolvemos projetos importantes para o esporte, como o do placar eletrônico via Sudesb — infelizmente não concretizado devido à cassação do prefeito à época.
Sempre tive o sonho de avançar mais e colocar meus projetos em prática, inclusive lançando candidatura à presidência da Liga Ilheense de Futebol. Muitos atletas, empresários e verdadeiros desportistas abraçaram essa causa. Porém, existe um grande obstáculo: historicamente, presidentes de liga transformaram a entidade em cabide de empregos, sempre alinhados ao prefeito de plantão. Criou-se um grupo fechado que se diz “fazedor de esporte”, mas que sabota qualquer candidatura fora desse círculo. Não largam o osso.
Hoje, o futebol amador de Ilhéus está refém de interesses políticos. Competições tradicionais como o Copão do Malhado são deixadas de lado, enquanto campeonatos ligados a vereadores da base recebem prioridade. O Estádio Mário Pessoa segue abandonado, muitas vezes por simples rivalidade política ou clubística. O futebol virou moeda de troca por votos.
Mesmo em gestões passadas, quando houve má administração, os times profissionais chegaram a jogar uma ou duas partidas fora de casa, mas sempre retornaram ao Mário Pessoa. O futebol só recebe atenção quando há interesse político.
O que não consigo entender é o atual descaso com a reforma do estádio, impedindo que o Barcelona de Ilhéus jogue em casa. Prefeito, nessa hora não existe rivalidade. Futebol gera economia, movimenta a cidade, projeta o nome de Ilhéus para fora.
Hoje, infelizmente, o futebol de Ilhéus está entregue às baratas.
Ficam apenas as saudades da minha época.
— Boca de Lata












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