Ilhéus
Foi bom para quem?
_Antes de celebrar 2025, vale perguntar o que mudou de verdade e quem, de fato, saiu ganhando._
Antes de qualquer retrospectiva oficial, daquelas embaladas por números soltos e frases otimistas, eu prefiro começar com a pergunta que atravessou silenciosamente todo este ano: foi bom para quem?
Porque 2025 terminou e, como acontece sempre que o calendário muda, surgem os balanços apressados, as listas de “avanços”, as narrativas bem ensaiadas sobre um suposto tempo de reconstrução. Mas basta tirar o verniz do discurso para perceber que a pergunta continua sem resposta clara. Ou, talvez, a resposta exista, só não inclua todo mundo.
Ao longo deste ano, neste espaço, escolhemos um caminho pouco confortável. Em vez de repetir versões oficiais, preferimos observar os detalhes. Em vez de celebrar anúncios, optamos por acompanhar entregas. E foi assim que emergiu uma Ilhéus mais preocupada em parecer do que em ser, mais dedicada à vitrine do que à vida real, mais eficiente na comunicação do que na solução dos problemas que seguem afetando o cotidiano da população.
Falamos de uma imprensa que, em muitos momentos, confundiu acesso com independência e silêncio com responsabilidade. Questionamos uma gestão que transformou redes sociais em política pública e tratou o improviso como método. Discutimos uma segurança viária que arrecada mais do que educa, uma política cultural reduzida a eventos esporádicos e milionários, uma memória histórica constantemente negligenciada (onde podemos saber da nossa história se os aparelhos culturais estão com as suas portas fechadas?) e projetos urbanos que, embora bem apresentados, pouco dialogam com as desigualdades reais da cidade. Para o centro/bairros nobres, tudo, para os rincões ilheenses, invisibilidade e esquecimento.
Nada disso foi escrito por acaso. Nada partiu de ressentimento ou conveniência. O compromisso que sustenta este espaço sempre foi com Ilhéus, não com governos, partidos ou disputas de ocasião. Criticar, aqui, nunca foi sinônimo de torcer contra, mas de se recusar a aceitar que o pouco seja tratado como muito, que o provisório vire permanente e que o discurso substitua a política de verdade.
E, neste ponto, eu preciso trazer você para essa conversa. Porque 2025 não expôs apenas as fragilidades de um governo, ele revelou também o quanto a cidade ainda tolera ser espectadora de si mesma. Quantas vezes você ouviu uma promessa e seguiu adiante? Quantas vezes percebeu que algo não fechava, mas preferiu o silêncio ao incômodo da pergunta? Quantas vezes aceitou a explicação mais fácil só para não contrariar?
O ano mostrou, com clareza incômoda, que gestão sem escuta vira encenação, que política sem diálogo se transforma em monólogo e que cidade sem participação popular se resume a cenário. Um cenário bem iluminado para fotos e discursos, mas frágil para quem enfrenta, todos os dias, os efeitos das decisões mal planejadas ou simplesmente adiadas.
Ainda assim, este texto não termina no desalento. E não termina porque acreditar em tempos melhores não é ingenuidade, é escolha consciente. Mas essa crença exige condição. Ela depende de uma população menos conformada, mais vigilante e disposta a ocupar o espaço do questionamento. Não há transformação real sem cobrança. Não há futuro possível sem participação.
A política não acontece apenas nos palanques ou nos gabinetes. Ela está na escola que não funciona ou falha, no transporte que não chega, no espaço cultural abandonado, no jovem que não encontra perspectiva. Por isso, sigo reafirmando um compromisso que atravessou cada editorial publicado em 2025, educação como base, juventude como horizonte e pensamento crítico como ferramenta indispensável para qualquer projeto sério de cidade.
Encerramos este ano com mais perguntas do que respostas. E talvez esse seja o maior acerto desta jornada editorial. Incomodar o suficiente para impedir o conforto da indiferença. Provocar reflexão onde antes havia silêncio. Construir um espaço que não se presta a aplausos automáticos, mas à análise honesta e responsável.
Em 2026, este espaço seguirá atento, mais vigilante, mais crítico e ainda mais comprometido com os interesses reais dos ilheenses. E eu sigo te convidando, leitor, a caminhar junto, questionando, discordando, compartilhando e participando.
Porque, no fim das contas, a pergunta permanece.
Foi bom para quem?
Boas festas. Que o próximo ano nos encontre menos conformados e muito mais conscientes.












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