Conecte-se conosco

Ilhéus

Manual de Uso Não Incluso

_Quando a cidade recebe tecnologia de primeiro mundo, mas insiste em operá-la com hábitos de improviso e autoridades que fingem surpresa._

Ilhéus decidiu avançar. Não exatamente naquilo que costuma dar trabalho, como planejamento, educação, saúde ou organização do espaço público, mas no que rende boas imagens. A cidade acelerou rumo à modernidade pela via mais conhecida, a da vitrine. Bem iluminada, estrategicamente enquadrada e cuidadosamente desconectada do funcionamento interno.
Os patinetes elétricos chegaram como chegam quase todas as grandes novidades por aqui, embalados em promessas, discursos otimistas e aquela confiança institucional de que tudo se ajusta com o uso. Mobilidade sustentável, cidade inteligente, verão leve. Um repertório que já conhecemos bem, repetido sempre que a ideia de futuro precisa caber num post.
O problema é que tecnologia costuma ser menos paciente que o marketing. Ela exige regras claras, comunicação eficiente, fiscalização presente e — ousadia das ousadias — algum tipo de preparo prévio. Sem isso, vira experimento urbano. E Ilhéus, convenhamos, tem longa tradição em testar políticas públicas diretamente na população, sem bula e sem acompanhamento.
Não surpreende, portanto, que os patinetes tenham rapidamente assumido funções não previstas em edital. Circularam onde não deviam, pararam onde não podiam e protagonizaram cenas que nenhum plano de mobilidade ousaria escrever, até nadar eles nadaram. Não por um surto coletivo de irresponsabilidade, mas por aquela velha sensação de território sem comando definido, onde a regra é difusa, o improviso se sente autorizado.
A surpresa institucional veio depois, como manda o protocolo. Um espanto contido, quase elegante, acompanhado de orientações genéricas e da esperança de que o tempo, esse gestor silencioso, resolva o que não foi pensado antes. É curioso como certas surpresas só acontecem depois que tudo acontece exatamente como era previsível.
Enquanto isso, a cidade observa. Tenta entender o que pode, o que não pode e até quando pode. Afinal, num ambiente onde a fiscalização aparece mais como reação do que como presença, a população aprende a ler sinais — e não regras.
No fundo, não é sobre patinetes. É sobre maturidade administrativa. Sobre a insistência em importar soluções modernas sem importar, junto, as condições mínimas para que elas funcionem. Não há mobilidade inteligente onde calçadas seguem impraticáveis, o trânsito permanece confuso e a organização urbana depende mais da sorte do que de método.
Ilhéus aprecia o novo, desde que ele seja fácil de inaugurar e rápido de divulgar. Planejar, educar e acompanhar são tarefas menos vistosas e raramente rendem boas fotos.
No fim, os patinetes apenas aceleraram uma constatação antiga: por aqui, o futuro costuma chegar antes da gestão.
E, sem manual, qualquer modernidade vira ensaio. Sem revisão. E com surpresa garantida na próxima novidade.

Clique para comentar

Envie seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *