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ZÉVANDRO: A lacuna que fica

Por Isaac Albagli

 

Ilhéus perdeu hoje um dos seus filhos mais queridos. Josevandro Nascimento, o Zévandro de todos nós, partiu, e com ele se vai um pedaço essencial da vida cultural desta cidade que ele tanto amou e tanto honrou. Presidente da Academia de Letras de Ilhéus, jornalista, escritor, professor universitário: os títulos são muitos, mas nenhum deles, sozinho, dá conta do tamanho do homem que hoje choramos.

Quem conviveu com Zévandro sabe que era impossível resumi-lo a um cargo ou a uma profissão. Ele era, antes de tudo, um humanista, uma dessas pessoas raras que carregam a cultura não como ornamento, mas como modo de estar no mundo. Culto sem nunca ser arrogante, inteligente sem nunca ser frio, bem-humorado sem nunca perder a seriedade das coisas que importavam. Essas eram suas principais qualidades. Mas havia uma, entre todas, que era simplesmente imbatível: o dom da oratória.

Quem teve o privilégio de ouvi-lo discursar sabe do que se fala. Zévandro não fazia discursos. Ele dava aulas. Cada palavra pesada, cada frase construída com o cuidado de quem respeita tanto a língua quanto o público, cada pausa no momento certo. Não importava a ocasião: uma sessão solene da Academia, uma posse, uma homenagem a algum confrade que partia, ou na tribuna da Câmara de Vereadores. Ele subia ao palco e, em minutos, transformava um evento protocolar em algo memorável. Sabia costurar história, literatura, memória afetiva e humor fino numa mesma fala, e fazia isso com uma naturalidade que só vem de quem estudou muito e amou ainda mais aquilo que estudou.

Não é pouca coisa dizer que Zévandro foi, por anos, a voz da Casa de Abel, a Academia de Letras de Ilhéus, uma das mais antigas do Brasil, fundada em 1959. Presidi-la é assumir a responsabilidade de manter viva uma tradição de quase sete décadas, de zelar pela memória de nomes como Jorge Amado, Adonias Filho e tantos outros que passaram por suas cadeiras. Zévandro fez isso com dedicação exemplar, abrindo a instituição para a comunidade, promovendo homenagens, cuidando da história literária e cultural do sul da Bahia como quem cuida de um patrimônio de família. Formado em Direito, com mestrado em Direito Público, trouxe para dentro das letras o rigor de quem também soube ser jurista, e para o Direito, o encanto de quem nunca deixou de ser, no fundo, um homem de palavras.

Como jornalista e escritor, deixou registros que hoje se tornam ainda mais preciosos: textos, discursos publicados, homenagens escritas com aquele mesmo cuidado artesanal que dedicava à fala. Como professor universitário, formou gerações. É provável que, neste momento, muitos de seus antigos e atuais alunos estejam relembrando alguma aula, algum comentário certeiro, algum daqueles momentos em que um professor deixa de ensinar conteúdo e passa a ensinar postura diante da vida.

Mas talvez o que mais vá fazer falta seja o Zévandro amigo. Aquele que cumprimentava com um sorriso genuíno, que tinha sempre uma piada na ponta da língua, que sabia rir de si mesmo e do mundo sem nunca ser leviano. A convivência com ele era um privilégio simples e constante: bastava uma conversa de corredor para sair dali mais leve, mais informado, ou simplesmente mais feliz por ter cruzado com alguém tão inteiro.

Ilhéus perde um dos guardiões da sua memória cultural. A Academia de Letras perde seu presidente. A universidade perde um mestre. O jornalismo perde uma pena lúcida. Mas os amigos perdem algo ainda maior e mais difícil de nomear: perdem a presença de alguém que tornava os dias mais interessantes só por estar por perto.

Zévandro, a lacuna que você deixa entre nós é grande. É do tamanho da sua oratória, da sua inteligência, do seu bom humor, da sua generosidade. Mas fica também, como consolo possível, a certeza de que sua voz continuará ecoando: nos discursos que ainda serão citados, nas aulas que moldaram tanta gente, nas histórias que os amigos vão contar e recontar sobre você por muito tempo.

Que a Casa de Abel guarde para sempre a sua cadeira com a reverência que você merece. Que o povo de Ilhéus se lembre de você como um dos seus melhores amigos.

Aos que ficam, o nosso abraço mais sentido: à esposa Consuelo e à filha Katiussa, toda a solidariedade e o carinho neste momento de dor. Que encontrem conforto na certeza de que Zévandro foi e continuará sendo profundamente amado e admirado por todos que tiveram a sorte de conhecê-lo.

Descanse em paz, querido Zévandro. A saudade já começou, e vai durar.

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